
Quando pensamos nos cuidados necessários durante o envelhecimento, é comum que a atenção esteja voltada para a saúde física. Consultas, exames, medicamentos, alimentação, prevenção de quedas e prática de atividades físicas costumam fazer parte dessa rotina. Mas há outro aspecto que merece o mesmo cuidado: a saúde mental.
O Setembro Amarelo amplia as conversas sobre prevenção ao suicídio e também cria uma oportunidade importante para olhar com mais atenção para a população idosa. Mudanças emocionais nessa fase da vida nem sempre são percebidas com facilidade e, em alguns casos, acabam sendo interpretadas apenas como consequência da idade.
Tristeza não deve ser considerada uma consequência natural da idade
O envelhecimento pode trazer mudanças significativas. A aposentadoria altera a rotina, os filhos podem sair de casa, algumas amizades se tornam menos frequentes e perdas de pessoas próximas podem acontecer com maior regularidade. Também podem surgir mudanças na saúde, na mobilidade e na independência.
Cada pessoa reage a essas situações de uma maneira. Por isso, sentimentos como tristeza, desânimo ou preocupação podem surgir em determinados períodos. O sinal de atenção aparece quando essas alterações persistem, se intensificam ou começam a interferir na rotina.
Deixar de encontrar amigos, abandonar atividades que antes davam prazer, demonstrar irritabilidade frequente, apresentar alterações importantes no sono ou no apetite e perder o interesse pelas tarefas do cotidiano são mudanças que merecem ser observadas.
Quando a família deve ficar atenta?
Nem sempre uma pessoa idosa consegue identificar ou comunicar claramente que está passando por um período difícil. Em outros casos, ela pode evitar falar por vergonha, medo de preocupar a família ou por acreditar que precisa lidar sozinha com o que está sentindo.
Por isso, conhecer a rotina ajuda a perceber mudanças.
Uma pessoa que costumava conversar bastante e passa a se isolar, por exemplo, pode estar demonstrando que algo mudou. O mesmo vale para quem deixa de cuidar da própria aparência, começa a recusar convites com frequência ou demonstra falta de interesse por atividades que antes faziam parte da semana.
Um comportamento isolado não permite chegar a conclusões. O mais importante é observar a frequência, a intensidade e o impacto dessas mudanças no dia a dia.
Escutar também é uma forma de cuidado
Ao perceber uma mudança, a maneira como a família aborda o assunto pode fazer diferença. Frases como “isso vai passar”, “você precisa se animar” ou “tem tanta gente em situação pior” podem parecer tentativas de incentivo, mas também podem fazer com que a pessoa deixe de compartilhar o que está sentindo.
Ouvir sem interromper, fazer perguntas com respeito e demonstrar interesse pelo que está acontecendo ajudam a criar espaço para o diálogo.
Também vale incentivar atividades compatíveis com os interesses e as condições de cada pessoa. Manter vínculos sociais, ter momentos de lazer, participar das decisões familiares e continuar realizando atividades que proporcionem satisfação contribuem para uma rotina mais ativa e significativa.
Quando buscar ajuda profissional?
Mudanças persistentes de humor, isolamento, perda de interesse, alterações importantes no sono ou no apetite, falas frequentes relacionadas à desesperança ou qualquer manifestação relacionada à vontade de morrer precisam ser levadas a sério.
Nessas situações, procurar avaliação profissional é fundamental. O acompanhamento permite investigar o que está acontecendo e indicar os cuidados adequados para cada caso.
A família não precisa esperar que a situação se agrave para procurar orientação. Quanto antes determinadas mudanças forem avaliadas, maiores são as possibilidades de oferecer o suporte necessário.
Setembro Amarelo também inclui quem envelhece
Falar de saúde mental na velhice ajuda a combater uma ideia que ainda precisa ser superada: a de que isolamento, tristeza e perda de interesse são simplesmente parte da idade.
Envelhecer envolve mudanças, mas sofrimento emocional persistente não deve ser normalizado.
Neste Setembro Amarelo, além de perguntar como estão a pressão, os exames ou os medicamentos, vale incluir outra pergunta na rotina: “Como você tem se sentido?”
E, principalmente, estar disposto a ouvir a resposta.